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"Se não houve frutos, valeu a beleza das flores; se não houve flores, valeu a sombra das folhas; se não houve folhas, valeu a intenção das sementes." (Henfil)

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:: Segunda-feira, Julho 26, 2010 ::

Tudo ao mesmo tempo (exatamente) agora

Odeio amar-te.

O ar some do peito, enquanto sinto a dor lancinante da traição a me rasgar o coração. O corpo treme e enrubesce, ao tempo que os ossos queimam de febre e os dentes rangem em agonia. Desejo esquecer-te agora, ao fechar os olhos, para nunca mais pensar na tua existência.

Acima de tudo, anseio sentir tua mão tranquilizadora em meu ombro, acompanhada da voz grave e afetuosa a dizer foi apenas um sonho ruim, estou aqui contigo.


:: O-implicante 12:35 PM [+] ::Comentários:

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:: Quarta-feira, Agosto 22, 2007 ::

Loucuras de uma paixão VIII

Enquanto voltava para casa não conseguia, nem desejava, parar de pensar naqueles momentos mágicos, revivendo cada instante em seus mínimos detalhes. A outrora esquecida vontade de gritar o amor para o mundo, com a intensidade da paixão que transborda no peito, agora açoitava meus parcos resquícios de lucidez, acompanhada de um brilho ímpar no olhar. Sentia seu cheiro impregnado no corpo, como se lhe houvesse bebido a essência e, naquele instante, vivesse dentro de mim. Acabei por adormecer sentindo o calor pulsante daquele colo salpicado, como se ainda estivesse em seus braços. Parecia ter os dedos de um anjo a cachear meus cabelos, num acalanto sem fim.

Apesar da vontade de fazer eterna a noite perfeita, sobreveio o amanhecer e, com ele, o chamando à responsabilidade. Não era justo fazer perdurar um compromisso que fora definitivamente maculado pelos acontecimentos da noite anterior. Assim, tratei de telefonar a minha noiva para marcar um encontro naquele mesmo dia. Precisava resolver toda a situação o quanto antes e estava aparentemente decidido em relação ao que queria. Aparentemente.

Ao escutar a voz daquela que participara, direta e indiretamente, das maiores realizações da minha vida até então, caminhando sem relutar sobre as flores e os espinhos dos caminhos que escolhi, as certezas que formulara desabaram de imediato e duas dúvidas invadiram meu coração: qual era o motivo dos problemas que o nosso relacionamento estava enfrentando e o que havia feito para resolver tal situação?

Visivelmente constrangido, apressei-me em encerrar a ligação, sem, contudo, dar sinais do acontecidona véspera. Mais uma vez o ímpeto da paixão atropelara a razão, cegando os olhos ao compromisso e me atirando no vazio da traição. Naquele momento, toda a felicidade que contagiava minha alma sufocara, enquanto a culpa atingia em cheio meu peito amargurado. A alegria de haver encontrado alguém especial mitigara-se pelas circunstâncias e, especialmente, pela impulsividade.

Aquele dia arrastou-se, angustiante, enquanto hora após hora me recriminava, esperando o instante de estar novamente na companhia acalentadora de minha amiga, minha paixão, minha... amante. Não havia me dado conta disso até ali: naquela noite, ela passara à incômoda condição de amante, incompatível com a pessoa encantadora que, desde o momento em que surgiu na minha vida, se mostrara absolutamente maravilhosa.

Agora eram dois sentimentos a assolar meu confuso coração: sofria pelo ato de delsealdade cometido contra a companheira de alegrias e tristezas, bem como pela condição impingida àquela que remediara todas as dores de minha alma leviana. Quão egoísta alguém tem o direito de ser nas coisas do amor?

Continua...


:: O-implicante 2:51 PM [+] ::Comentários:

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Loucuras de uma paixão VII

18:50h. Esperava no estacionamento, dentro do carro, tentando acelerar os ponteiros do relógio com a força da mente. Todas as dúvidas que fervilharam em meu cérebro até então pareciam ter se dissipado, dando lugar a um sentimento impar de excitação. A despeito do ar condicionado, gotas de suor brotavam da fronte e teimavam em escorrer pela face, fazendo que gastasse uma caixa de lenços de papel. Verificava compulsivamente, já pela centésima vez, o vinho, as flores e o livro que escolhera como presente. Tudo em ordem, 18:52h.

18:55h, resolvi me anunciar à portaria. Ela atendeu de imediato e pediu que subisse, pois precisava de minha ajuda com alguma coisa. Saí do elevador e encontrei a porta entreaberta. Fiz soar a campainha e a vi surgir como em um sonho. Usava um vestido de cetim pérola, justo na medida certa. O decote emoldurava o colo sem ousar, enquanto uma fenda conferia sensualidade a todo o conjunto. Os lindos olhos, emoldurados pela maquiagem perfeita, brilharam de emoção ao ver o que trazia. Para o meu espanto, aquela mulher maravilhosa nunca havia recebido flores.

Disfarçando a surpresa, cumprimentou-me com um beijo no rosto e agradeceu pelas rosas e pelo livro. Naquele instante, o toque daqueles lábios e o suave perfume que emanava de seu corpo me fizeram estremecer. Enquanto colocava o vinho para resfriar, acompanhava de soslaio seus movimentos delicados. Parecia flutuar por entre a mobília, segura e absoluta, como se desfilasse para mim.

O jantar estava delicioso. O vinho, além de aguçar o paladar, solta a mente e a língua, tornando a conversa agradavelmente reveladora. Trocamos elogios, olhares, sorrisos e suspiros. Na hora da sobremesa, ela veio com uma grande taça de sorvete de chocolate, com morangos e cerejas. Em alguns minutos, estávamos alimentado um ao outro, entre gargalhadas e carinhos. O doce das frutas e do chocolate, combinado aos efeitos do álcool, fez o resto do serviço. Não havia mais gelo a ser quebrado ou timidez para ultrapassar. Nos beijamos, sofregamente, como há muito ansiávamos, enquanto uma onda de arrepios percorria nossos corpos.

Era como se tivéssemos nascido um para o outro. Antecipávamos todos os desejos do outro, perfeitamente encaixados. Sentia seu hálito cálido, a respiração trêmula e descompassada, bem como os movimentos ávidos de suas mãos a me puxar e empurrar, deslizando na mistura do nosso suor até o êxtase. Naqueles momentos, formamos um, plenos. Aquela sensação me acompanharia para o resto da vida, indescritível e incomparável.

23:37h...

Continua...


:: O-implicante 2:51 PM [+] ::Comentários:

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Loucuras de uma paixão VI

Desnecessário falar que não consegui me concentrar em nada mais durante todo aquele dia, enquanto as idéias fervilhavam. Ao mesmo tempo em que desejava ter uma noite perfeita, a consciência me chamava à realidade. Seria impossível aprender com os erros passados? Essa força de vontade raquítica nunca permitiria que meus relacionamentos passassem incólumes às tentações? A quem era pior enganar?

Minha noiva era uma mulher especial. Inteligente, além de muito bonita, me hipnotizava sempre que se punha a falar. A paixão com que defendia suas convicções contagiava ao mais desinteressado ser e proporcionava debates memoráveis. Possuia, ainda, uma personalidade tremendamente forte, que assustava àqueles que não a conheciam bem. Por outro lado, quando se tratava do nosso relacionamento, transfigurava-se em menina desprotegida, absolutamente vulnerável. Por vezes, sua dependência chegava a incomodar, mas a meiguice dos olhares apaixonados que me lançava aplacava qualquer sentimento ruim que pudesse aflorar.

Minha colega era fascinante. Perspicaz e atraente, arrancava suspiros por onde passava. Vários professores e colegas haviam se declarado desde que entrara na faculdade, alguns até com bastante vêemencia, mas ela sempre mantivera uma postura firme. Ninguém jamais a vira com paqueras. No começo, falava sempre de um namorado distante, que ficara em sua cidade natal, no interior de São Paulo. Depois, confessou-me que aquilo era um estratagema para afastar aos mais atirados. Esguia e de voz melodiosa, tinha lindos cabelos negros, levemente ondulados e eternamente perfumados.

Além dos atributos físicos, impressionava pela elouqüência e domínio dos conteúdos que se dispunha a discorrer. Tinha o dom da oratória, e um charme que embevecia aos ouvintes. Sua simpatia também era notória no campus, principalmente entre os funcionários, aos quais sempre dispensava uma palavra de carinho. Vivia sozinha em Brasília, sem parentes próximos. Os pais haviam ficado na fazenda, enquanto a irmã mais velha estudava no sul. Apesar de tudo, desde que a vi pela primeira vez senti que havia uma moça frágil e carente se escondendo sob aquele manto de autosuficiência.

Eu sempre fui volúvel. Desde os anos de colégio, nos primeiros namoricos, nunca consegui me prender completamente à alguém. Os amores iam e vinham em uma velocidade intrigante, que se tornou folclórica nos tempos de segundo grau. Tudo era muito sofrido, hiperbólico. Acreditava ser definitiva cada desilusão, a última chance de ser feliz. Passava tempos sem comer, me abatia e morria um pouco, para renascer dias depois com força redobrada e, logo, estar apaixonado outra vez. Jurava que faria tudo diferente, que seria um exemplo de namorado, mas nunca conseguia que durasse. A monogamia me angustiava, trazendo em sua esteira um sentimento melancólico de perda da vida.

Com o tempo, passei a respeitar os sentimentos dos outros. Tornei-me um homem leal, sempre fiel às pessoas que depositavam sua confiança em mim. Ao contrário da época de juventude, não me permitia traição, preferindo ser sincero, independente do que custasse. Tal comportamento logo se mostrou tão ou mais cruel do que o antigo. Foi por duras penas que aprendi serem as pequenas incertezas, os casos fugazes e as escapadas despretensiosas meros acidentes de percurso, aos quais todos estamos sujeitos, que não merecem estragar bonitas histórias.

Mas dessa vez era diferente. Teria sido muito mais simples se aquele sentimento que brotava em meu coração fosse outra banalidade, peça pregada pela mente fantasiosa de um garoto que teimava em não amadurecer. Só que não era, não se tratava de paixão pueril, mas de cumplicidade, respeito e carinho entre dois adultos independentes e donos de seus destinos.


:: O-implicante 2:48 PM [+] ::Comentários:

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Loucuras de uma paixão V

Acabei surpreendido, mais uma vez. Na segunda-feira, ao abrir minha caixa de emails do serviço, deparei-me com uma mensagem sua, marcada como urgente. O coração veio à boca, com batimentos absurdamente rápidos. As palmas das mãos suaram, ao mesmo tempo que a boca ressecara. Maldizendo a ferramenta de emails por sua lentidão, criei dezenas de possibilidades enquanto aguardava a disponibilização do conteúdo daquela mensagem inesperada.

"Alex, não podia imaginar ser tão difícil passar 3 dias longe de ti. Te espero, hoje, às 19h, no meu apartamento. Traga algo para bebermos, a comida fica por minha conta. Beijos com carinho. P.S.: essa música é para embalar teu dia."

Ela mandara uma música em .mp3 anexada ao email. O título era Não vejo a hora, deliberadamente alterado para que eu não soubesse do que se tratava enquanto não colocasse para tocar, o que foi feito imediatamente. Os primeiros acordes causaram um arrepio que mesclava felicidade e pânico. Identifiquei a melodia e, absolutamente embevecido, escutei uma, duas, dez vezes a canção que dizia "Se você vier, pro que der e vier, comigo, eu te prometo o sol, se hoje o sol sair, ou a chuva, se a chuva cair...".

Quando a pasmaceira terminou, esqueci meus escrúpulos e retornei o email. Era minha primeira reação explícita ao flerte, e sabia que aquilo me comprometeria em definitivo, mas aquela história já não obedecia a qualquer tentativa racional.

"Vinho branco está bom?"

Decidi, ainda, usar a linguagem que tanto dera certo até então, juntando ao texto outro arquivo .mp3, com uma música que julguei apropriada, Frisson, do Tunay.

A paixão pode ser inimiga do bom gosto, mas é besteira querer negar que as canções de amor mais significativas são aquelas normalmente consideradas B. Outra ironia está no fato de que, algum dia, se Caetano Veloso e cia. continuarem sem inspiração, regravando antigas músicas "românticas" e alçando-as ao patamar de sucesso nacional, nosso repertório brega restará drasticamente reduzido.

Bem, a resposta veio rápida e objetiva:

"Tinto. Combina melhor com carne vermelha. Amei a música. Te espero."

Continua...



:: O-implicante 2:47 PM [+] ::Comentários:

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Loucuras de uma paixão IV

Foi um final de semana tenso. Ao contrário do anterior, não consegui controlar meus sentimentos. Contei cada minuto para a noite de segunda-feira, angustiado com a falta de notícias. Estive, por várias vezes, a ponto de telefonar-lhe, mas consegui não chegar a esse extremo. Precisava manter minha compostura, mostrar-me sério e no controle da situação, pelo menos na aparência.

Ledo engano acreditar que a racionalidade é capaz de sobrepujar a excitação do flerte apaixonado. O turbilhão, depois de iniciado, tem o poder de fugir ao controle do mais frio indivíduo, desencadeando um universo de sensações indescritíveis. Vez por outra me pegava imaginando situações, sonhando acordado com momentos de carinho em sua companhia.

Ao mesmo tempo que me recriminava, sentia um prazer crescente. Era como se o proibido exercesse uma atração irresistível, fazendo com que a ansiedade me queimasse o estômago e rasgasse o peito. Algumas vezes, parecia que a respiração acabaria por faltar-me, principalmente quando punha para tocar a música que tudo iniciara.

O cigarro tornou-se o companheiro preferido naqueles infinitos dias. Sempre disponível, despejando sensação de prazer por todo corpo a cada tragada. O som do crepitar de sua brasa, quebrando o silêncio da madrugada, causava satisfação quase comparável à da nicotina invadindo os pulmões para, dali, adentrar à corrente sangüínea na forma de um bálsamo milagroso. O calor da fumaça descendo pela garganta aliviava o aperto angustiante da espera. Saudade.

Decidi que a segunda-feira seria o dia definitivo. Aquela situação não podia prosperar, pelo o bem da minha sanidade. Eu a esperaria fora da faculdade, tencionando abordá-la antes que lá chegasse. Não assistiríamos às aulas, ao contrário, sequer entraríamos no campus. Da rua, seguiríamos para onde pudéssemos conversar e colocar todas as coisas em seus devidos lugares. Estava absolutamente decidido a resolver tudo aquilo logo, mas faltava um simples detalhe:


Eu não sabia o que queria.

Continua...


:: O-implicante 2:45 PM [+] ::Comentários:

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Loucuras de uma paixão III

Ela não foi à aula.

Fiquei absolutamente desconsertado com aquilo. Não conseguia imaginar um motivo plausível para seu não-comparecimento. É claro que podia ter acontecido qualquer coisa, como preguiça, compromisso inadiável e etc, mas ainda assim permaneci intrigado. Tive ganas de telefonar para saber a razão, e estava a ponto de fazê-lo quando uma colega em comum apareceu à porta e me chamou para entregar um cartão.

A colega riu maliciosamente e me passou um envelopinho lacrado com cola, com meu nome no verso. Fiquei extremamente constrangido, pois aquilo praticamente levava a público que havia algum plus entre nós. Por sorte, me veio à cabeça uma boa desculpa:

- Ainda bem que ela mandou isso por você. Já estava preocupado, imaginando qual desculpa eu daria a minha noiva para justificar a falta de ingressos para ir ao show do Djavan. Muito obrigado.

O sorriso malicioso deu lugar a uma expressão decepcionada. Podia se sentir, esvaindo no ar, toda uma aura de romance secreto criada na cabeça da indiscreta mensageira. De imediato, ela se virou e tomou o rumo da sala ao lado. Havia sido por pouco. Não podia permitir que circulassem boatos envolvendo nossos nomes.

Retornei ao meu lugar e, disfarçadamente, rompi o pequeno fecho de cola. O envelopinho continha um cartão com poucas palavras:

"Será que sentirás minha falta?"

Aquele jogo estava começando a ficar ousado, e isso me causava um estranho sentimento, quase que de excitação. Sorri satisfeito, rasgando cartão e envelope em pequenos pedaços, prontamente atirados ao cesto de lixo. Mas restava ainda a curiosidade a respeito do motivo para aquela ausência inesperada.

As aulas se arrastaram aquela noite. Parecia que os professores estavam especialmente inspirados, ao mesmo tempo que os ponteiros do relógio se moviam com extrema lentidão. Meus pensamentos, por sua vez, iam e vinham em uma seqüência frenética, calculando o significado daquele cartão, recriminando a atitude tão pouco cautelosa ou formulando explicações que justificassem a falta.

Ao final da noite, já conformado com a situação, retornei para casa aliviado, mas intrigado. O pior seria ter que esperar até segunda-feira para ter minhas respostas.

Continua...


:: O-implicante 2:41 PM [+] ::Comentários:

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Loucuras de uma paixão II

Obviamente, tudo aquilo fora calculado. Era uma sexta-feira e ficaríamos o final de semana inteiro sem contato. Havia tempo de sobra para que sua atitude causasse o máximo de efeito na forma de pensamentos, elocubrações e, porque não, saudades, antes que nos víssemos outra vez. Isso poderia mesmo ter ocorrido, caso fosse uns 2 anos antes. Acontece que, àquela altura do campeonato, apesar da pasmaceira inicial, não me permiti nenhuma empolgação.

Noite de segunda-feira. Dava para sentir a ansiedade no ar quando cheguei, cumprimentei a todos e me sentei, como de costume. Ela fez cara de espanto, e não era para menos, mas sei ser dissimulado quando me interessa. Fiquei calado, compenetrado na explicação do professor, sem sequer olhar para os lados. Sentia seus olhos controlando meus movimentos, mas fingi que não tomava conhecimento de sua presença.

Deixei para puxar assunto na hora do intervalo, em plena roda de colegas. Perguntei como havia sido o fim de semana e outras amenidades, me deliciando com a angústia que crescia. Por fim, agradeci pelo cd e fiz breves comentários a respeito da faixa indicada, deixando claro que havia entendido a mensagem mas, ao mesmo tempo, não dando nenhuma abertura.

Notei, de imediato, sua frustração. Tive vontade de mudar minha postura, de abrir a guarda e permitir uma aproximação. Felizmente, meu lado ponderado predominou e mantive o comportamento que havia decidido desde o início. Não me sentia confortável para me lançar na aventura que se desenhava, além de nutrir uma grande admiração por aquela moça, o que dificultava tudo.

Enfim, papeamos como se nada tivesse acontecido e nos fomos, cada um para o seu lado. Passamos a semana inteira daquela forma, mas o sentimento latente crescia em ambos, quase impossível de se disfarçar. Até alguns colegas teceram comentários a respeito das "faíscas" que andávamos trocando. Aquilo constrangia a ambos, pois eu ostentava uma grande aliança no dedo anular da mão direita, alvo de brincadeiras e piadas constantes.

Sexta-feira, noite de carona. Confesso que pensei em faltar à aula. Meu autocontrole encontrava-se em frangalhos depois daquela semana com os nervos à flor da pele. Temia pelo que poderia acontecer quando ficássemos a sós. Na verdade, era a possibilidade de ser colocado contra a parede que me apavorava. Eu resistia ferrenhamente à idéia de levar um romance paralelo ao meu noivado, que sequer cogitava romper. Por outro lado, não conseguia encerrar aquele situação inesperada e, ao mesmo tempo, prazeirosa.

Resolvi ir para a faculdade. Adiar aquele momento não levaria a nada, ou melhor, poderia causar tanta ansiedade que as coisas acabariam por tomar um rumo incontrolável. Decidi pagar para ver.

Continua...


:: O-implicante 2:38 PM [+] ::Comentários:

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Loucuras de uma paixão

Uma noite, dei carona a uma pessoa recém conhecida, apesar de um longo convívio acadêmico, muito agradável e inteligente. Trocávamos idéias a respeito de preferências musicais quando ela, inesperadamente, sacou da mochila determinado cd, sugerindo que escutasse a faixa 3. Preparei-me para colocá-lo no player, mas fui interrompido com um apelo, um pedido para que ouvisse com atenção, só que depois, sozinho. Concordei, não sem antes jogar um charme, dizendo que qualquer música ficaria melhor se ouvida em boa companhia (o básico de sempre). Após deixá-la na rodoviária, fui para casa descansar, esquecendo completamente da música.

Em casa, depois de jantar e tomar banho, lembrei do tal cd. Estava sob as tralhas de trabalho, carteira, chaves, canetas e crachá, com a caixa já arranhada. Dei uma olhada: nada que identificasse artista, música ou gênero. Resolvi primeiro ajeitar o quarto para dormir, deixando o discman estrategicamente posicionado ao lado da cama.

Assim que deitei, coloquei os fones e selecionei a faixa sugerida. Sons de banjo, batuque e laiá laiá. Não gostei e pausei. Eu até curto samba, pagodinho do Rio, mas não estava no clima. Fiquei me perguntando o que motivara aquele presente e concluí que, para saber, só escutando. A surpresa foi imediata, um choque. A música não tem nada especial, mas mensagem (nem tanto) implicita, naquele contexto, me balançou.

Eu acabara de ficar noivo, apesar de estar vivendo um momento conturbado no relacionamento. Não estava certo a respeito do que queria, mas eram 3 anos juntos, famílias convivendo, vida de casados. Tomara a decisão depois de sofrer muita pressão por todos os lados, desde as famílias, passando pelos amigos, até, por último, mas não menos forte, da namorada.

Naquele momento, fiquei desorientado. Era uma mulher atraente, extremamente interessante. Não que minha noiva não o fosse, muito pelo contrário, mas as diferenças eram significativas. Resolvi deixar rolar, mas decidido a não cair na besteira de manter, outra vez, uma vida dupla (isso fica para outra história).

O título da música dá nome ao post, e a letra é a que segue:

Sem lhe conhecer
Senti uma vontade louca de querer você
Nem sempre se entende as loucuras de uma paixão
Tem jeito não
Olha pra mim
Faz tempo que meu coração não bate assim

Não faz assim, me diz seu nome
Não me negue a vontade de sonhar
De sonhar os meus sonhos com você
Despertando pro seu adormecer
Seria bom demais
Que bem me faz, você

Continua...



:: O-implicante 2:36 PM [+] ::Comentários:

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Amiga,

Sei que vive por ele, ele também o sabe. Mas ele não te vê como eu, suplicando que conte que ele me confessou, entre um copo e outro, que sonha com a tua pele à noite, ou que enlouqueces com cada botão que desabotoas imaginando serem as suas mãos.

Ele também não te viu estremecer esperando por uma palavra, um gesto ou um abraço seu, nem te vê como eu, com os olhinhos abertos e suspirando, ao me escutar falando seu nome. Amiga, eu sei, e ele também.

Não sei o que dizer, tampouco o que fazer, para te ver feliz. Quem me dera mandar em sua alma, ou na liberdade que lhe falta. Gostaria de encher teus bolsos de sucessos, de renovar seus sonhos e ilusões. Queria te presentear uma poesia, mas sempre achas que estou dando notícias.

Bom, quem sabe, uma dia, lendo estas linhas, entendas que nunca quis contar a tua história, até porque poderia ser algo comovente. Me perdoa, amiga, isso não é inteligência e nem sabedoria, é apenas o meu jeito de dizer as coisas. Não que seja o meu trabalho, mas é o meu idioma.

Amiga, princesa de um conto infinito, espero que sempre conte comigo. Vamos ver se algum dia acabo aprendendo a falar, sem fazer tantos rodeios, que toda essa história só me interessa porque és minha amiga.


Essa é uma tradução livre, em foma de carta, da música "Amiga mia", do Alejandro Sanz

:: O-implicante 2:33 PM [+] ::Comentários:

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Web lover

Ézio estava estranhando o comportamento de Marcelinho, seu primogênito. O garoto sempre fora rueiro, não recusando sequer convite para batizado, mas ultimamente vivia literalmente trancado em seu quarto, fechado à chave e ferrolho.

A mãe batia na porta e berrava, reclamando que não havia necessidade de se trancar, mas o menino nem dava ouvidos. Ézio defendia, argumentando que, na adolescência, os filhos sentem maior necessidade de privacidade e talz, mas aquilo também já começara a incomodá-lo.

Um sábado cedo, ainda não passara das 21h, Marcelinho toma banho, coloca roupa de festa e deseja boa noite à família. Para espanto geral, ao invés de se dirigir para a rua, mete-se no muquifo de onde apenas se escuta o som baixo da tv. Ézio entende que aquela situação tem que ser tirada a limpo e bate na porta do quarto. Após alguns minutos de silêncio, quebrado apenas pelo som da novela que saia lá de dentro, o filho destranca a fechadura e permite sua entrada:

- Filho, precisamos conversar.
- Diga.
- O que está acontecendo contigo?
- Não tá rolando nada não, pai.
- Mas filho, você não sai mais desse quarto. Chega do colégio, mal come e já se mete aqui.
- Ah pai, relaxa, são só uns rolos aí.
- Mas menino, que rolos? Você não está metido com drogas não, né? Deixa eu cheirar a tua mão...
- Pô, pai! Tá me estranhando? Eu lá sou maloqueiro?
- Mas filho, você está até com olheiras, vai ver no espelho. Eu sou teu pai, se abre comigo.
- Pai, não é nada não, é que eu tô catando umas minas aí e...
- Catando minas? Mas como, se você não sai mais dessa porra de quarto?
- Tô vendo que você não saca nada mesmo. Parou no tempo, véio? Nunca ouviu falar de internet?
- Olha o respeito, guri. O que tem a internet com o que estamos conversando?
- Tá certo, tá certo, já vi que vou ter que dar aulinha. Senta aqui e liga o micro.
- Se é para ver pornografia eu não estou interessado. Muito me admira você ficar aqui olhando sites...
- Que sites o que, pai. Prestenção, se liga aqui na parada. Clica nesse botão aqui.
- Esse dos peõezinhos com a borboleta?
- Isso, o nome é messenger. Coloca aí a minha senha, é ********.
- Tá, e aí?
- Tá vendo esse botãozinho escrito "rangos"? Pois é, tô pegando todas.
- Como assim pegando, Marcelinho?
- Tô comendo, oras.
- Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk! Você quer que eu acredite que você está comendo essas mulheres aqui? Você nem sai de casa, garoto. Para de inventar, já vai começar o Zorra Total. Desembucha logo que merda você fica fazendo trancafiado nesse quarto o dia todo.
- Pai, prestenção, calaboca e prestenção, senão você não vai entender nunca. Clica aqui nessa fada dos sonhos e finge que sou eu. Diz assim: "E aí, gostosa!? Hoje tô quentaço".
- Garoto, assim você espanta qualquer moça.
- Moça??? É a maior maçaneta, pai. Faz aí o que eu tô falando que você vai ver.

Cello Zulu diz:
E aí, gostosa!? Hoje eu tô quentaço.
fada dos sonhos diz:
Hum, demorô pra chegá, meu macho.

- O que eu digo, Marcelo?
- Fala que a moto quebrou e você teve que buscar a caminhonete para trazer ela pra casa.
- Moto? Caminhonete?
- Só fala, e vê se não me queima.

Cello Zulu diz:
É que a moto quebrou e eu precisei pegar a caminhonete para buscá-la.
fada dos sonhos diz:
Que bom que vc tá aqui, gostozão. Eu já tô molhadinha só de vc falar da motocicreta.
fada dos sonhos diz:
Quando mesmo vc vai me levá pra dá uns rolé de caminhonete? Quero ver se eu cabo deitadinha na cassamba.
Cello Zulu diz:
Qualquer dia, meu amor.
fada dos sonhos diz:
Meu amor??? Nossa, vc nunca falou assim comigo. Ti lindu.

- Pô, pai! Assim você me quebra. Não dá muita moral pra essas minas não que elas montam.
- Tá certo. E agora?
- Pede pra ela abrir a webcam.
- Como se escreve isso?
- Fala pra ela abrir a câmera.

Cello Zulu diz:
Você pode abrir a câmera para mim.
fada dos sonhos diz:
Hummm, vc tá tão educadinho hj gatão. Abro tudo o que vc quizé.

...

- Filho, elas aparecem sempre assim, peladonas?
- Depende, pai. Tenho minhas técnicas de convencimento, mas umas são safadas mesmo.
- E você passa teu tempo livre todo aqui, olhando? Isso não é comer.
- E você queria que eu fizesse o que? Que gata vai quere um cara de 16 anos que não tem carro nem grana?
- Você não pode pensar assim. Toma, pega aqui R$50,00 e vai dar uma volta. Quem sabe não encontras uma gatinha e a convida para tomar sorvete, fazer um lanche. É assim que se começa.
- Cê não entendeu nada, né véio!? Eu não quero grana pra sair. Eu tô pegando um monte de gatas, nunca conseguiria ver o tanto de xereca que eu vejo aqui se estivesse na rua. Se liga, resolvi virar um conquistador virtual.
- Deixa de besteira, menino. Que graça tem ver boceta na tela?
- Pai, eu tô economizando tua grana, tô na segurança do lar e não corro o risco de emprenhar ninguém ou de pegar doença. O que você quer mais?
- É, tá certo. Você tem só 16 anos, muita água ainda vai rolar.
- Pode dar licença então?
- Pera aí, deixa eu ver essa popozuda do baile...
- Sai fora, pô! Vou contar pra mãe, velho safado.

:: O-implicante 2:24 PM [+] ::Comentários:

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:: Sexta-feira, Novembro 17, 2006 ::
The beginning
:: O-implicante 2:14 PM [+] ::Comentários:

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